Vida Trifásica 12ago09

Por Kuca MoraesEvento, Notas

Confesso que quando soube do convidado deste mês do Diálogos Contemporâneos, o Professor Renato Janine Ribeiro, não me interessei muito. Não sei quem ele é e não li o texto de divulgação de sua palestra. Mas como as demais edições tiveram todas algo a me acrescentar, dirigi-me mais uma vez à Câmara Municipal de Campo Grande para prestigiar o evento.

Não me enganei. Algumas ideias abordadas pelo Professor foram de muita valia, chegou até a elogiar o Twitter enquanto difusor de informação. Além disso, como o público compareceu menos em relação aos meses anteriores – o que é uma vantagem, IMHO, afinal acompanhei o Amyr Klink do chão – sobrou tempo o bastante para perguntas.

Vamos às notas:

  • Nossa vida pode ser dividida em três fases: o princípio do prazer na juventude; na vida adulta, o princípio da realidade, quando temos que abrir mão da maioria dos prazeres para trabalhar e se sustentar; e uma falta de significado ao atingir a velhice, geralmente depois de ter conquistado a aposentadoria.
  • O mainstream explora a beleza juvenil, a beleza madura ou senil é praticamente obscena. Este padrão estético despreza a visão do corpo natural.
  • A Publicidade brasileira, apesar de acompanhar imageticamente o mainstream, é direcionada à pessoas que gostariam de ser jovens. Afinal, nem sempre os jovens possuem poder aquisitivo compatível com os produtos anunciados.
  • A educação não é prioridade para os pais brasileiros. Troca-se o carro enquanto se procura escolas mais baratas ou públicas.
  • Muitos costumam responsabilizar as escolas pela educação moral e ética de seus filhos.
  • Os pais se preocupam antes se a carreira escolhida pelos filhos dará dinheiro, e não se os tornará realizados.
  • Há uma disfunção entre Energia, Poder Aquisitivo e Tempo Livre. Durante a juventude temos o primeiro e o último de sobre, porém, somos financeiramente dependentes. Adultos já são economicamente potentes, mas caso ainda lhes reste alguma energia não vampirizada pela jornada de trabalho, certamente lhes falta tempo. E os aposentados já estão exaustos, embora tenham a agenda livre.
  • É preciso reduzir a ambição do consumo. Como exemplificou o Professor, “o Condord não deu  certo, mas ninguém se lamenta. Estamos todos resignados em voar subsonicamente”.
  • Com a capacidade produtiva atual e a abundância de profissionais qualificados, não há necessidade de uma carga de 30 anos de trabalho com 40 horas semanais. A escassez não mais existe naturalmente, nós a criamos continuamente para manter o modelo econômico vigente.
  • Renato citou o caso disse ter lido em uma reportagem do NYT em que desempregados poloneses resolveram unir-se na construção de um navio. Totalmente Bitchun.
  • Para fugir da superficialidade é preciso repensar essas três fases, mesclar, adaptar: dar uma nova perspectiva à juventude e aliviar a carga da maturidade para proporcionar uma velhice mais saudável e ativa.

Ps.1: Se você ainda não leu Down and Out in the Magic Kingdom, de Cory Doctorow, MORRA! leia logo!

Ps.2: Quem não teve a oportunidade de comparecer ao evento pode assistir aos vídeos disponibilizados posteriormente na página oficial do Diálogos.

3 Comentários →

  1. Resenha excelente, Lucas. Eu, que estava na palestra, pude entender melhor alguns pontos que não tinha ligado na hora, no riquíssimo pronunciamento do filósofo (em breve um post no meu blog sobre isso).

    Só queria registrar um paralelo genial que captei na palestra, traçado pelo Renato de forma magistral e profética.
    Ele mencionou esse ponto do Concorde que vc disse, que me permito repetil-lo com minhas palavras: o homem, um dia, inventou o avião. Ele não passava de 80 Km/h. Uma viagem de Paris para o Egito demorava no mínimo 3 dias. Aos poucos essa velocidade foi aumentando e aumentando até que chegamos na barreira do som. Fez-se, então, o avião supersônico (Concorde) e em um certo momento percebeu-se que não era necessário viajar tão rápido; que não é preciso ir de Londres a Los Angeles em 3 horas, que posso fazer essa viagem em 15 horas. Não há necessidade de “tanto avanço”.
    O paralelo, em seguida, traçado pelo palestrante foi genial: a expectativa de vida do homem há alguns anos era de no máximo 40 a 50 anos. Ela só vem crescendo. Hoje, nossa expectativa de vida é de cerca de 70 anos. E isso tende a aumentar – assim como a velocidade dos aviões. “Chegará um momento”, completou Renato, “em que nossa expectativa de vida será tão grande que teremos de optar morrer. Chegará um ponto em que, passados mais de um século de vida, perceberemos que não é mais desejável viver tanto tempo”.
    Isso é um previsão, ao meu ver, muito lúcida e palpável e que revela uma reviravolta em nossa compreensão ética, principalmente sobre assuntos como Eutanásia e assimilados. Achei genial. Talvez ainda viverei o suficiente para ver isso acontecer.

  2. [...] Fui lembrado disso quando assisti à palestra de Renato Janine Ribeiro, há duas semanas, em mais uma edição do “Diálogos Contemporâneos” (para uma excelente resenha, clique aqui). [...]

  3. Joca,

    Realmente o ponto que você acrescentou realmente interessante. Neste livro do Doctorow que eu frequentemente cito, o futuro utópico apresentado por ele conta não apenas com a derrocada do sistema econômico a que estamos acostumados, mas apresenta uma época em que as doenças e a própria morte foram superadas pela humanidade. Como os senhores de Númenor, os lendários Atlantes e os primeiros homens da Bíblia, os personagens do livro, quando se cansaram do mundo, escolhem a hora de descansar.

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