As Pérolas do Navegante 27mai09

Por Kuca MoraesEvento, Notas

Nesta segunda-feira, a Câmara Municipal de Campo Grande abriu novamente suas portas aos Diálogos Contemporâneos, desta vez para receber a palavra do navegador Amyr Klink, compartilhando um pouco de suas experiências expedicionárias e aventureiras.

Inauguro agora uma nova categoria de posts em que eu possa registrar minhas impressões sobre a palestra sem me preocupar muito com a forma, apenas revelando simples anotações.

No relato dele, percebi lições de natureza diversa. Como a vivência do princípio mercadológico de que, às vezes, um problema não necessariamente o é. Soluções simples e criativas: para controlar crianças agitadas em uma embarcação no Polo Sul, por exemplo. E até pitadas de iluminação metafísica.

  • Vamos começar com o item mais curioso: como controlar crianças agitadas? Simples, com uma guia regulável para cães. Meu tio tinha uma ideia parecida que consistia no seguinte. Sabe aqueles brinquedos em que se prendem duas cordas elásticas parecidas com as de bungee jump em uma cadeirinha de escalada pra se poder dar saltos extraordinariamente altos? Pois é, no modelo de gestão de pirralhos do meu tio, bastava pendurar o meliante com o equipamento desse tipo de modo que não fosse possível tocar o chão com os pés. Voilá.

Poster - Into the Wild

  • Quais são motivações que nos levam a desejar ir pra longe, aventurar-se sozinho? Pode ser pra fugir de responsabilidades, ou de algumas pessoas; deixar os problemas para trás; ser senhor de seu próprio tempo. Não imaginamos, no entanto que a jornada pode ser bem diferente. Em um de suas expedições, Amyr ficou encalhado na Antártica por mais de um ano – esta estória me remeteu muito ao filme Into the Wild, em que um garoto abandona tudo para se aventurar no Alasca – nesta ocasião, tempo era o que ele não tinha. Nas palavras dele, ‘nós não percebemos, mas temos um exército de pessoas que trabalham pra nos deixar confortável e nos permitir viver’ – além dos cuidados básicos de um morador solitário (cozinhar, lavar e passar roupa) lá fora, é preciso conseguir água potável, se manter aquecido, caçar comida. Pra nós, basta 1/4 de volta na torneira pra se ter água limpa e abundante.
  • Erros são os melhores professores do bom aprendiz. Durante este mesmo ano, Amyr conta que perdeu muito tempo limpando a neve do convés, quanto a própria neve é um ótimo isolante térmico.
  • Um observador externo tem um poder se julgamento mais preciso por não estar envolvido. Quando tentava circunavegar o Polo Sul, a esposa do navegador, de sua casa no Brasil, conseguiu a solução para que ele não precisasse desistir e pudesse concluir a proeza de forma segura.
  • Aquilo que vemos como Problema pode, na verdade, ser a solução. Para tentar a travessia do Atlântico – da África do Sul à Bahia – o aventureiro queria projetar um barco ‘incapotável’, no entanto, desenvolveram um que capotasse sem causar problemas. No incidente durante a volta na Antártica, a esposa de Amyr Klink contratou serviços meteorológicos para localizar tempestades. Não para que ele desviasse delas, mas para que ele pudesse cavalgá-las e ganhar velocidade.
  • É preciso força de vontade para se aventurar, ou pra qualquer outra coisa na vida. Chateado com a possibilidade te ter que abortar a viagem em torno do continente gelado, e tendo sua esposa revelado que havia escondido algumas garrafas de champagne na embarcação – que podem significar a morte para alguém que tem que dormir por períodos de no máximo 45 minutos – o marinheiro foi capaz de aguardar a volta pra casa para usufruir da bebida.
  • Entretanto, não sem algumas tentativas. Muito bem humoradamente observado, ‘depois que decidimos fazer algo errado, já não importa o tamanho do delito, disse. Caso ele abrisse uma daquelas garrafas, não seria pra tomar uma taça e sim pra acabar com o estoque todo. Ou seja, tá no inferno, abraça o capeta. Noutra feita, tentado a abrir uma garrafa, dirigiu-se para o local mais bonito da Antártica que ele havia visitado – afinal, era uma ocasião especial – e resolveu brindar com um discurso. Acabou concluindo que é muito difícil falar pra ninguém, o que me faz pensar em como algumas estratégias de comunicação são mal planejadas. Além disso, lembrei-me da frase que mais me marcou no Into the Wild: Happiness is only real when shared.
  • Logo no início da palestra, Amyr Klink comentou que o turismo no Pantanal se assemelha muito ao turismo no Polo Sul, por possuir um conteúdo histórico natural e por estimular uma consciência ambiental. Nos falta – aos brasileiros de modo geral – vontade de dar condições ao desenvolvimento. Quantas atividades economicamente viáveis permanecem inexploradas no nosso país? Por isso, ao investir em seu empreendimento – um estaleiro no interior de São Paulo – o foco principal do marinheiro não é o lucro. Antes, o desenvolvimento da navegação no Brasil. Totalmente Bitchun.
  • Por fim, certa vez ele e os tripulantes resolveram enterrar na Antártica uma máquina do tempo -  uma caixa com objetos pessoais, fotos, whiskey e algum dinheiro. Em uma outra oportunidade, cometeu o erro de contar às suas filhas sobre o tesouro escondido, e obviamente elas não sossegaram enquanto não desenterraram a caixa. Ao abrirem, a decepção das crianças não poderia ser maior – e não apenas porque o tesouro não era um baú de madeira cheiro de pérolas e moedas de ouro – acima de tudo, disse ele, porque não era o tesouro delas. Portanto, cada um de nós deve construir o próprio tesouro.

Falando nisso:

  1. Vida Trifásica

2 Comentários →

  1. Apesar de ter praticamente só ouvido a palestra (de tão lotado que estava!!), digo que foi show. Esse Amyr é mto louco…

  2. [...] menos em relação aos meses anteriores – o que é uma vantagem, IMHO, afinal acompanhei o Amyr Klink do chão – sobrou tempo o bastante para [...]

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