Nudez em Casa Salesiana 10mar09

Por Kuca MoraesArtigo, Egotrip, Portfolio

Já há alguns anos sou apaixonado pela fotografia. Não me casei com ela ainda por falta de oportunidade, não de desejo. Estou planejando o noivado para o próximo semestre, no entanto. Meu relacionamento sério com ela começou oficialmente quando a abracei para o Trabalho de Conclusão da minha graduação, escolher qualquer outro assunto me colocaria certamente em adultério. E, como não poderia ser diferente, iniciei o romance com o tema que mais me fascina: nudez.

O único porém é que eu era graduando de uma Universidade Católica. Consegui concluir o projeto sem empecílios, uma vez que meus orientadores não deixaram de me apoiar – e outra vez que eu só permiti que eles vissem as fotos às vésperas da banca. Entretanto, obviamente meu trabalho não consta no acervo da biblioteca. Então, poucas pessoas tiveram acesso, considerando que até alguns funcionários administrativos ficaram sabendo do trabalho na época, em relação à certa repercussão que teve na Universidade.

Mesmo dentre os amigos e conhecidos que chegaram a olhar as fotos, apenas uma pequena parte teve a oportunidade de ler o artigo, que nunca foi publicado pela Universidade, até onde eu sei. Por isso, recebo contato de interessados em ver o projeto com bastante frequência. Portanto, vou deixar disponível aqui o artigo e publicar aos poucos as fotografias na minha galeria no Flickr.

Eu gostaria de ter abordado apenas o aspecto artístico da fotografia de nudez, mas como o curso me tornaria um publicitário eu precisava dar um jeito de enfiar a propaganda no projeto, segundo meus orientadores. Isso é uma das coisas que me faz ressentir de não ter procurado um bacharelado em fotografia, ao invés de estudar publicidade. Enfim, a intenção do trabalho se converteu em demonstrar que a utilização da fotografia de nudez na publicidade pode ser de extremo bom gosto e nada vulgar. Para isso, optei por fazer um catálogo – a maneira mais discreta que concebi para incluir conceitos publicitários sem macular muito a arte.

Afinal, a sociedade contemporânea é essencialmente imagética, não é preciso mais que uma (boa) fotografia para se transmitir uma mensagem. Desta forma, nada melhor que um catálogo para explorar o discurso visual. O catálogo possui uma dualidade ímpar em sua retórica: funciona como uma vitrine de bolso, com linguagem simples, direta, apresentando o produto e seu preço; ou porta, em seu conteúdo, uma mensagem que pede para ser percebida.

O argumento que utilizei para justificar o projeto foi o seguinte:

A arte é permeada de nudez desde a antiguidade clássica. Na Grécia, o corpo humano nu era ícone de beleza. Concentrava um valor estético e cultural. De fato, houve um tempo em que mesmo estas manifestações de valor indiscutível foram rotuladas como impróprias ou imorais – um tempo de esculturas mutiladas, pinturas cobertas e fogueiras alimentadas com livros e sangue.

Hoje, em uma sociedade dita pós-moderna, em que as mulheres são emancipadas e após a revolução sexual, ainda assim a representação da nudez não é vista com bons olhos. É, antes, condenada pela visão falocêntrica de perversão, do que fruída pela beleza estética, ou até mesmo aceita como estímulo natural.

É necessário devolver à nudez o status de valor que possuía desde a antiguidade clássica. Logicamente, é preciso adaptar-se à ótica contemporânea. Não obstante, em uma sociedade sexualmente liberada e diversificada, esse contraponto está mais a adicionar-se como argumento.

Além disso, o tema é ainda um tanto inexplorado e merece atenção especial. Sendo a sedução uma das armas da propaganda, é válido estudá-la e aperfeiçoá-la. Por que então, restringir o uso da sedução literal a produtos ligados à sexualidade? Ora, a adesão a uma marca não é senão um tipo de fetichismo.

Por isso, foram incluídos no catálogo – além de jóias, produtos cosméticos e acessórios, que já utilizam a nudez com frequência em suas campanhas – os segmentos de cultura e tecnologia. O resultado ficou bastante inusitado e o trabalho me deixou suficientemente satisfeito. Tenho orgulho dele.

Ps.: Quando eu subir todas as imagens do catálogo pro Flickr, atualizo o post com algumas das fotos e o link. Até lá, as três primeiras imagens do widget aí na barra lateral são as últimas postadas, ou estejam à vontade para visitar minha galeria com mais frequência.

Falando nisso:

  1. Plano de Fundo
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6 Comentários →

  1. Muito explicado, bem sucinto, tu apresenta bem teus argumentos.
    Agora é só focar naquilo que desejas.
    Abraço

  2. Tu é um puta fotógrafo! Quando eu tiver grana vou te contratar para fazermos uma parceria de imagem e literatura!

    @kucamoraes: A única coisa que eu sugiro esperar, Leo, é a aquisição da minha nova camera, que pretendo realizar até o final deste semestre. No mais, adoraria participar do teu projeto exatamente como parceiro, sem a necessidade de você me contratar. Pode contar comigo.

  3. O primeiro parágrafo foi sublime. Bravo!
    Tive a oportunidade de ver o catálogo de fotos e assistir à apresentação do trabalho perante a banca da Universidade. A qualidade é incontestável. Você deve ter orgulho do trabalho, assim como eu tenho de dizer que meu amigo que o fez.

    Ainda não li o artigo (porque estou dando uma espiada rápida no post, aqui no meu trabalho), mas assim que o fizer, comento aqui.

    Abraço, guri!

    @kucamoraes: Obrigado, Joca. Fico lisonjeado por merecer seu orgulho. Foi uma grande honra ter sua presença na minha defesa de tese. Não tenho certeza se já te disse isso, mas acho que nunca havia ficado tão satisfeito com um trabalho meu senão quando te vi explicando para seus amigos exatamente o que eu havia explicado sobre o projeto no dia da avaliação, sem trocar uma palavra. Fiquei muito feliz!

  4. Bea Ferelli Disse:
    10 de março de 2009 às 21:39

    Eu como sua caloura acompanhei uma parcela mínima do seu trabalho e eu me recordo quando você estava a procura de “modelos”, alguns amigos meus ficaram super empolgados querendo participar, mais acabou que o tempo passo e eles não entraram em contato. Confesso que fiquei bem impressionada com o tema, por N motivos, Faculdade católica, tema querendo ou não polemico, mais fiquei bem animada em ver a apresentação como uma boa apreciadora de fotografia.

    A apresentação apesar do tempo curto foi bem interessante, até que um dia tive a oportunidade de ler o artigo, a minha visão mudou totalmente. Comecei a olhar esse tipo de fotografia com outros olhos e comecei a apreciar muito esse estilo, confesso que ao terminar de ler o artigo comecei a acreditar que um ensaio nu ou semi nu não seria uma má idéia, não falo só por mim, mais acredito que ajudaria muito a aprender cultuar o corpo como antigamente, do jeito que você comentou.
    Ah! Caso queira tenho aqui em casa um filme que chama “Fotografias Proibidas”, bem interessante (; fica a dica.

    :*

    @kucamoraes: Fico feliz se ter mudado um pouco a sua percepção sobre a nudez, Bia. Espero ter atingido mais pessoas da mesma forma. Eu gostaria de ver o filme, sim, caso você possa me emprestar.

  5. Agora li o artigo. Excelente! Fiquei mais tranquilo com meus fetiches por pés e costas femininas. =)

    Que bom que aquele momento (da explicação do seu trabalho pro meus amigos) significou tanto assim! Era meu orgulho estampado…

    E vamos parar por aqui, senão o negócio fica “coisa de gay”… hehehehe…

    Bjo… ops! Quer dizer, abraço! =P

    @kucamoraes: esse comentário foi uma ótima deixa para produzir um texto sobre diversidade sexual, vou encubar a ideia, pois terá de ser muito bem elaborado.

  6. Cara, eu fui o cara que apertou o botão no dia da apresentação dessa joça…FERA DEMAIS!!!

    @kucamoraes: Pô, Pedrão. Não avacalha… ‘joça’ não, né?

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