Quando se trata da adaptação de obras literárias para o cinema, principalmente entre os fãs, rola uma certa tensão: será o filme fiel ao texto? Melhor ler o livro antes de assistir o filme? Enfim, será que vai prestar? Projetos deste tipo com frequência geram uma cisão entre fãs do livro e fãs do filme.
As melhores adaptações de todos os tempos, IMHO, foram realizadas pelo mestre Stanley Kubrick – são simplesmente impecáveis. Peter Jackson também fez um incrível e, até agora, insuperável trabalho no gênero de fantasia medieval com a trilogia do Anel.
Confesso que normalmente eu fico do lado dos fãs xiitas que ficam embirrados quando o roteiro adaptado traz muitas, sabe, adaptações. Porém, devemos admitir a natureza díspar das linguagens cinematográfica e literária.
Henry Selick tomou algumas liberdades narrativas com a adaptação de Coraline, expandindo o conto de Neil Gaiman, inclusive, com a introdução de um novo personagem – o que é perfeitamente justíficável quando se pensa na dinâmica da narrativa no cinema versus na literatura.
Explico me: a Coraline do livro é mais intimista. De férias, seus pais não dispõem de muito tempo para lhe devotar, portanto a menina usa somente a própria criatividade para se divertir. Em suas solitárias e introspectivas explorações, acaba descobrindo um Outro mundo.
Na animação, fica mais interessante a interação dela com outro personagem que apresentar todos os seus insights em monólogos. Além, disso o filme tem alguns incrementos visuais, como o jardim no formato do rosto de Coraline, o trator louva-deus e a cena da teia.
Os detalhes sobre a produção e a campanha de divulgação já foram esmiuçados pela equipe do Omelete e pelo Merigo, respectivamente. Não tive a oportunidade de assistir a versão 3D, mas devido a praticamente todos os elementos em cena terem sido manufaturados, a animação apresenta texturas de um realismo surpreendente. A técnica do stop-motion é empregada aqui com maestria, os movimentos são muito fluidos, mas ainda remetem às antigas animações russas e despertam um sentimento especialmente nostálgico naqueles que, como eu, passaram a infância assistindo Pingu na TV Cultura.
A trilha sonora de Bruno Coulais com o Coro de Crianças de Nice e a Orquestra Sinfônica de Budapeste é bastante envolvente e nos acolhe dentro do universo criado por Gaiman.
Enfim, são abordagens sutilmente distintas da mesma estória que provocam os mesmos sentimentos e nos transportam para o mesmo universo. É preciso vivenciar ambas para ser capaz de observar o valor de cada uma delas.
Excelente a resenha, Kuca!
Lido. Não comento, porque não conheço o assunto, não li o livro ou vi o filme. Mas, sem dúvida, é uma boa e instigadora resenha.
Eu li o livro antes do filme e gostei muito.
Não me decepcionei com o filme, mas confesso que prefiro o livro.
Imaginei uma Coraline diferente. E a introdução desse novo personagem me confundiu.
Querendo ou não, ler o livro ates de assistir o filme, acaba sendo bom e ruim.
Bom porque você pode comparar (o resultado, na maioria das vezes, não costuma superar o livro), e ruim porque você se decepcionar porque não foi fiel.
Sabendo-se que, por certas razões, eles adaptam pra ficar mais para o público em geral.
beijoo,
Mayara.
Não li o livro, mas indo pela minha ansiedade, as vezes desapontamento, mas de um modo geral, entendendo, consigo compreender esses duvidas que você colocou na resanha, só uma pessoa que passa por isso saberia disso..a adaptação por mais que eu a odeia, é necessaria de vez em quando; separo a obra literária da cinematográfica, pra não ficar com raiva de uma, por não ser fiel a outra..fazer o que? né!