A Outra Coraline 14fev09

Por Kuca MoraesArtigo, Crítica

Quando se trata da adaptação de obras literárias para o cinema, principalmente entre os fãs, rola uma certa tensão: será o filme fiel ao texto? Melhor ler o livro antes de assistir o filme? Enfim, será que vai prestar? Projetos deste tipo com frequência geram uma cisão entre fãs do livro e fãs do filme.

As melhores adaptações de todos os tempos, IMHO, foram realizadas pelo mestre Stanley Kubrick – são simplesmente impecáveis. Peter Jackson também fez um incrível e, até agora, insuperável trabalho no gênero de fantasia medieval com a trilogia do Anel.

Confesso que normalmente eu fico do lado dos fãs xiitas que ficam embirrados quando o roteiro adaptado traz muitas, sabe, adaptações. Porém, devemos admitir a natureza díspar das linguagens cinematográfica e literária.

Henry Selick tomou algumas liberdades narrativas com a adaptação de Coraline, expandindo o conto de Neil Gaiman, inclusive, com a introdução de um novo personagem – o que é perfeitamente justíficável quando se pensa na dinâmica da narrativa no cinema versus na literatura.

Explico me: a Coraline do livro é mais intimista. De férias, seus pais não dispõem de muito tempo para lhe devotar, portanto a menina usa somente a própria criatividade para se divertir. Em suas solitárias e introspectivas explorações, acaba descobrindo um Outro mundo.

Na animação, fica mais interessante a interação dela com outro personagem que apresentar todos os seus insights em monólogos. Além, disso o filme tem alguns incrementos visuais, como o jardim no formato do rosto de Coraline, o trator louva-deus e a cena da teia.

Os detalhes sobre a produção e a campanha de divulgação já foram esmiuçados pela equipe do Omelete e pelo Merigo, respectivamente. Não tive a oportunidade de assistir a versão 3D, mas devido a praticamente todos os elementos em cena terem sido manufaturados, a animação apresenta texturas de um realismo surpreendente. A técnica do stop-motion é empregada aqui com maestria, os movimentos são muito fluidos, mas ainda remetem às antigas animações russas e despertam um sentimento especialmente nostálgico naqueles que, como eu, passaram a infância assistindo Pingu na TV Cultura.

A trilha sonora de Bruno Coulais com o Coro de Crianças de Nice e a Orquestra Sinfônica de Budapeste é bastante envolvente e nos acolhe dentro do universo criado por Gaiman.

Enfim, são abordagens sutilmente distintas da mesma estória que provocam os mesmos sentimentos e nos transportam para o mesmo universo. É preciso vivenciar ambas para ser capaz de observar o valor de cada uma delas.

4 Comentários →

  1. Excelente a resenha, Kuca!

  2. Lido. Não comento, porque não conheço o assunto, não li o livro ou vi o filme. Mas, sem dúvida, é uma boa e instigadora resenha.

  3. [...] que assisti Coraline, a trilha sonora não me sai da cabeça, acordo com as vozes das crianças de Nice todos os dias. [...]

  4. Eu li o livro antes do filme e gostei muito.
    Não me decepcionei com o filme, mas confesso que prefiro o livro.
    Imaginei uma Coraline diferente. E a introdução desse novo personagem me confundiu.
    Querendo ou não, ler o livro ates de assistir o filme, acaba sendo bom e ruim.
    Bom porque você pode comparar (o resultado, na maioria das vezes, não costuma superar o livro), e ruim porque você se decepcionar porque não foi fiel.
    Sabendo-se que, por certas razões, eles adaptam pra ficar mais para o público em geral.

    beijoo,

    Mayara.

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