Quer um café? 22ago08

Por Kuca MoraesCrítica

Escuro como a noite, aquece nossos corações todas as manhãs; se o arrebatamos apressadamente, na ânsia de o desfrutarmos, pode nos ferir; e se aguardamos demais para aproveitá-lo, esfria e perde o sabor; pode ser forte, intenso e ainda adocicado. Mas há quem o trague amargo.

O café é metonímico em No Gosto Doce e Amargo das Coisas de que Somos Feitos. Incorpora as vivências das personagens que nos são apresentadas.

Três atrizes mascaradas recebem o público, cumprimentando-o e desejando boas vindas. No entanto, a medida que a trama se desenvolve e as máscaras caem, é possível delinear apenas duas personagens: uma representada por Bruno Moser, o único ator em cena, a outra interpretada por suas companheiras de cenário, Ligia Prieto, Luciana Kreutzer e Aline Duenha.

Ligia Prieto em No gosto doce e amargo das coisas de que somos feitos

Cada uma delas nos mostra vislumbres de determinada época da vida da personagem: uma jovem alegre e sonhadora – quer ser atriz no Rio de Janeiro – que apesar de ter um objetivo em mente, personifica o carpe diem estereotípico da juventude; uma mulher forte, misteriosa, aparentemente segura de si, que conseguiu aquilo que queria e agora precisa lidar com a vaga frustração de quem concluiu uma etapa sem saber qual seria a próxima; e uma mulher abatida, nostálgica, fragilizada e talvez arrependida.

E as três interagem mutuamente, mesclam-se e trocam de papeis, dependendo em que ponto do cenário se localizam ou se estão usando uma peça do figurino que partilham. Assim vão desenhando sua personagem de forma não linear, nos revelando aos poucos as convergências em sua personalidade a partir de três momentos de vida diferentes.

O espetáculo não é encenado em um palco, mas no espaço delimitado pelas arquibancadas em que se acomodam os espectadores – que, apesar de estarem à margem do cenário, são completamente envolvidos pelo ato. Tanto devido à iluminação intimista, quanto pela interação com as personagens – os atores induzem a platéia a responder suas perguntas, oferecem-lhe café, sussurram-lhe aos ouvidos.

Livremente baseado na obra de Clarisse Lispector, No Gosto Doce e Amargo… é um mergulho profundo na psicologia feminina, pleno de simbolismos e significado. E não é à toa que o espetáculo – dirigido por Nill Amaral – vem esgotando bilheterias em todas as suas apresentações.

Assistí-lo é uma experiência ímpar.

Obs: texto originalmente publicado no Fazeroquê, logo após a temporada de apresentação do espetáculo no II Festcamp – Festival de Teatro de Campo Grande – encenado no Armazém Cultural.

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2 Comentários →

  1. Excelente resenha da peça!
    O comentário sobre o mergulho na alma feminina retrata bem o universo introspecto de Clarice Lispector.

    Parabéns!

  2. Larissa Nani Disse:
    27 de agosto de 2008 às 15:26

    O comentario foi instigante, aguçou minha curiosidade e vontade de assistir a peça! Parabéns.

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