Eleição Vandaliza a Arte 18set08
A arte urbana é a manifetação cultural mais importante deste início de século. Considero-a um indício de desenvolvimento de uma cidade. Já ouvi dizer que um dos principais fatores que caracterizam o chamado terceiro mundo é a presença de moscas, talvez o surgimento de grafitti marque a gênese de futuras metrópoles. É a diferença entre uma cidade cinza e um vértice cosmopolita.
Existe uma preocupação estética em Street Art, e até convenções éticas entre os artistas. Por exemplo, não se interfere na obra alheia – não vale atropelar, como eles dizem: não se pinta ou cola por cima, nem se arranca o trabalho de outro artista – puro bom senso, afinal, ninguém sai por aí rabiscando peças em galerias. Por não compreender estes aspectos, muita gente não consegue perceber a diferença entre vandalismo e arte.


Com a proximidade do pleito municipal, ficamos todos sujeitos à campanha eleitoral. A prefeitura de Campo Grande recentemente pintou os viadutos da cidade – que já estavam descascando ou que ainda ostentavam a arrojada decoração de concreto nu – alguns ficaram muito bonitos, com traços kadiwéu ou um belo painel mostrando um tsuru, aquele pássaro de origami.


Um outro candidato a vereador, no entanto, resolveu se divulgar em um extenso muro na esquina da Av. Mato Grosso com a Av. Ernesto Geisel – ponto notoriamente ornado com o trabalho de diversos artistas de rua. Ainda é possível perceber os traços dos grafitti por baixo da pintura e ter noção de como é possível estragar um painel ENORME devido ao bom senso limitado nulo de uma campanha política.
Duas semanas atrás, um bando de vândalos invadiu a Choque Cultural, galeria de Street Art paulistana, e pixou o lugar de cima a baixo como forma de suposto protesto. O caso gerou certa comoção, principalmente por terem danificado uma tela do Speto, grafitteiro brasileiro de renome internacional. Tem gente que acha que foi marketing de guerrilha e tem quem atribuiu até certo valor artístico às peças arruinadas.
De qualquer forma, não deixa de ser um atentado ao artista, na exata proporção da campanha eleitoral atropelando o mural da Mato Grosso. Na boa, um candidato que não tem respeito pela arte não merece meu voto. Aliás, ainda não encontrei nenhum que mereça, então é bem provável que eu anule meu voto para vereador.
Obs: texto originalmente publicado no Fazeroquê, à época das eleições municipais em Campo Grande.





18 de setembro de 2008 às 16:15
Gostei bastante do seu artigo, Kuca. O que me deixa envergonhado com o candidato X é que muito provavelmente, o mesmo pagou pouco ( e ainda com a verba cediada para a eleição) aos pintores. Toda eleição é assim. Felizmente estes vândalos engravatados nunca triunfarão em acabar com as boas idéias. ^^v!
19 de setembro de 2008 às 18:04
Putz ainda bem que alguém escreveu sobre isso. Fiquei indignada quando vi essa graande muro… laranja! Eu adorava o grafite e as pinturas dessa quadra, e sonhava em fazer fotos com pessoas na frente do muro. Decepcionante encontrar propaganda política aonde tinha arte (sim, arte)…